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10.7.07
fiji
Eu, solitário por natureza, acionista da Light, deixo as luzes todas acesas. Não quero que ele saiba que leio livros na escuridão. Não quero que ele saiba que eu converso com os móveis, nem que converso com as provas na faculdade. Não quero que ele saiba como eu encho a banheira – meus olhos se perguntam de onde vem tanta água. Não quero que ele saiba que eu abraço as colunas de gesso das varandas, mecanicamente. Nem que sou cansativo e superficial, que preciso me sentir abrigado e seguro como o recheio de um bubbaloo, apenas para sonhar com a idéia da mordida, que abraço árvores também, que salvo insetos em perigo, que eu preciso colocar a cabeça pra fora do carro pra fumar quando saio com meus pais, que tenho varizes, que tenho olheiras, que eu vejo a hora no microondas todas as vezes que passo por ele, que assedio os manequins das lojas. Mas ele sabe. Engraçado como nossos segredos, os mais íntimos, parecem sempre querer passear, ver as pessoas, subir à superfície, mas eles deveriam se comportar como carpas num agradável lago ornamental. Enquanto nossos sonhos, os mais intensos desejos, querem inalar óxido nitroso em todas as festas, passar dormindo os feriados, mas eles deveriam se comportar como crianças de oito anos no playground. Eu desprego do mural as fotos da viagem à Disney com a Tia Augusta, para ele não perceber que eu ainda tenho oito anos. Escondo as manchas do sofá com uma manta bonita. E escondo as machas da manta bonita com almofadas de plush novinhas. Não gostaria que ele percebesse que eu sou o tipo de pessoa que sai por aí manchando tudo com xicrinhas de café e canetinha. Mas ele percebe. Percebe que eu faço um esforço gigantesco para não parecer ridículo quando estou sendo ridículo. Porque ele também faz isso tudo. Ele também conversa com os móveis. Mas eu nunca soube de nada. Porque ele não escreve isso no seu blog.
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3.7.07
loló
Não sei por que chove na sala de estar. Mas, chove. Eu permaneço aqui sentado, acariciando o chenile. Não fujo porque não sou um gato. Aliás, sou comida de gato. Sou um peixe. De aquário. E às vezes o aquário está cheio de bacardi. Por isso, às vezes eu me esqueço de você. Mesmo quando chove, não tenho botas de borracha. E a chuva que derruba árvores não consegue despentear minhas escamas douradas. Ou borrar minha maquiagem de arlequim do carnaval do ano passado. Sou daquele tipo de samambaia que nunca morre. Mas, que também, nunca é amada. Sou de plástico, mas as poças atraem meus sapatos. Relâmpagos orquestrais iluminam minhas idéias sujas como uma lanterna. Sinto-me intimidado, com um pouco de medo, não são idéias brilhantes que eles iluminam. Os raios caem. Todos na minha cabeça. Torrada. E mesmo assim, ela só pensa em você. Não pude ler todos os manuais que deveria ter lido, eu não acreditava neles. Não me aprofundei o bastante em nenhum mistério. Nem desviei dos gramados que poderia ter evitado, dependendo da sua posição e disposição, eles se tornam indesviáveis. Não estou mais apaixonado pelas faixas amarelas dos estacionamentos, elas são infelizes e muito rígidas. Agora, meus dedos escrevem nossos nomes nos vidros embaçados da sua eco sport. Minha cabeça se transformou num youtube lotado de saudades. Lotado de você. Câmeras de segurança no meu quarto. Ou seja, anjos. Chove e eu estou acima da chuva, nas nuvens, aqui não há pássaros. É como se você tivesse beijado meus olhos, de tanto que já olhei pra sua boca. Ela está xerocada na minha íris. Fico imaginando como seria ter, no lugar das minhas lentes de contato, o seu chiclete de canela. Eu adoraria saber. Sua mão de skatista grampeada na minha coxa. Assim, eu não teria como fugir. Aliás, assim eu não teria razões para fugir. Mesmo temendo ficar feliz demais. Mesmo prevendo uma chuva de cloreto de etila.
18.6.07
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17.1.07
11.1.07
Condomínio Para Marialu
As nuvens todas. São iguais. Mas os botões do seu vestido. Cada um de uma cor. E um formato. O caos suntuoso da beleza dos Pólos me distancia da borda. Eu quero paz, mas Ele não desliga o maldito rádio. Levo minha avó ao hospital na noite de Natal, mas eu nunca a conheci de verdade. Mas eu adoro hospitais. Não consigo acreditar que não estou envelhecendo. Não existem gerânios vermelhos. Acho que preciso sair daqui. De dentro desse maracujá. Eu tento consertar a vida com fita crepe, mas a pele dela é de papel de eletrocardiograma. Quando o duréx abraça o papel, ele não pode mais solta-lo, senão ele deixa aquela ferida branca e eu penso que ele é perverso, mas ele é só amoroso. A gente precisa arrancá-lo com cuidado. Mas como desfazer um abraço? Ele está tão longe. É impossível. Nada é impossível. É por isso que as bexigas de aniversário nunca murcham. Porque eu não estou aqui e ao mesmo não estou mesmo. Ele está tão longe. Tão longe. E me engravida um pouco a cada dia. Tão longe e me passa sapinho. E essa saudade não passa, ela se mudou para dentro de mim, tomando o lugar de um rim. Preciso de rins e de saudades. Mas não há espaço para tantos pés num único par de sapatos. Essa escada-rolante é a minha única opção. Esse travesseiro é o meu relevo. A minha paisagem. Eu me sinto perdido ou sozinho? Eu preciso de sal? Se eu saísse de casa. Se a casa me abandonasse. Se eu começar a andar agora eu não paro nunca mais. Se eu guardar as taças de cristal elas não se quebrarão. Um dia, serei um fantasma. E esse será o mais perto que eu chegarei de um desmaio. Não estou sozinho nem perdido, só estou chocado. Porque os abraços desfeitos são como piscinas desmontáveis. Só que, em proporções atlânticas.
25.8.06
Faux pas
Adoro bala com gosto de maquiagem. Sou, no fundo, simples, incrédulo, pouco masculinizado e instintivamente amoroso, eu tenho catorze anos. O carrossel rodopia veloz como um relâmpago, e eu quero descer do cavalo. Eu quero ir para o céu, sem precisar morrer, tocando um instrumento que eu não sei tocar, usando uma roupa bonita que eu não posso comprar. Eu quero ir de elevador. Para todos os lugares. Eu quero que você me telefone. Se eu pudesse comer somente pão pullman todos os dias, seria mais fácil. Se eu pudesse decompor minha estupidez e minhas esperanças, certamente eu seria um garoto mais seguro, não seria esmagado pelas suas mãos de skatista, nem me sentiria tão profundamente atraído por elas e seus joelhos cheios de béndeids. Mas pra mim, redemoinhos também são atraentes, tentadores, loiros. Descarto a idéia do equilíbrio-tarja-preta porque você já é o meu alto risco. Você é o meu bumerangue que não voltou, quer risco maior? Você é a minha pilha de lenços kleenex ensopados. Eu leio minha sorte no orkut. Ok. Onde leio meu azar? Não sei distinguir beijo de beliscão. Eu só recebo carinhos do sabonete lux. Não sei derramar meu charme em cima das pessoas, sem repeli-las. Eu beijo as paredes. Não consigo mais imaginar a textura dos seus lábios, talvez não se assemelhe em nada com uma parede, mas eu me esforço ao máximo para entender o vermelho e o negro desse conflito. Sexo fácil é tão difícil. Tantas pistas de dança embaixo da minha cama. Tantos monstros dentro das minhas roupas. Eu fecho os meus olhos, minha conjuntivite, depois de pingar um colírio que me faz chorar uma banheira. E acho uma combinação perfeita, essas lágrimas falsas e você sempre sem nenhuma roupa dentro da minha cabeça, então eu choro e me masturbo. Como sair da armadilha idealista e adotar uma perspectiva realista do mundo, se da cozinha ao quarto, eu sofro um jet-lag? O que fazer? A quem recorrer? Aonde ir? Na minha apreensão fragmentária do mundo, percebo as florezinhas da sua blusa de lã e me apaixono por elas. Eu sou ridículo, agradavelmente estúpido. Eu sou a tia Alice. A vida, a minha vida, é um filme chato que eu vejo passar, enquanto aperto os botões do controle-remoto, em todos os canais. Hoje vou dormir dentro do freezer. Pelo menos os sonhos são coloridos, até mesmo na glacial falta que você me faz.
2.8.06
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4.7.06
carta woolfliana
A vida é um baile, Ken. Eu devia ter sido barrado na porta. Agora vou ter que dançar com todos os rapazes. E me esfregar em corpos que parecem árvores, choronas, me desvencilhar de braços e troncos e folhas e cabelos grudados em costas fortes e suadas, de uma ponta a outra na pista de dança na boate enfumaçada. Até encontrar você. Porque as coisas não são fáceis, pra mim a vida não tem facilitado, você não está no Google. Não está. Mas acho que você não conhece essa música. Você é um desses rapazes perfeitinhos criados em laboratório. E a afetividade desses rapazes corre no Ibirapuera com nike shox. Eu fico sentado, observando. Quando vou abraçar a camiseta certa? Abrir o zíper certo? E se eu beber demais e perder a comanda? E se eu perder a cabeça? Me diz, a adolescência impetuosa não acaba nunca? A vida parece música, Kal-El. Os rapazes são harpas que eu não sei tocar, mas eu toco. Eles dormem comigo, não sei até quando. As artimanhas e o chamariz de toda a minha propaganda contra os fortes e belos só continuarão obtendo sucesso se os fortes e belos tiverem compaixão pelo sofrimento de uma abelha. Eu verifico a gravidez das flores, pela manhã, mas eu tenho sono o tempo todo; creio que elas, sozinhas, terão de polinizar e fazer o parto e mostrar as suas florezinhas novas pra minha mãe. Não consigo entender a cor roxa. A não ser que ela seja um machucado. Não existe um quarto atrás de toda porta, é uma pena. Um quarto-escuro do laboratório de um fotógrafo famoso onde eu possa me deitar e fechar a minha boca suja. Mas há uma aflição específica quando acaricio meus mamilos. Levemente ou de maneira mais enérgica, até mesmo a sucção, a palavra, o beijo, a revelação. É uma brincadeira, embaixo da chuva, fazer de conta que estou chorando. Mas é muito sério, muito sério mesmo, embaixo de você, fazer de conta que tenho voz rouca. Pois eu não tenho. Meu lápis não escreve mais, comi a ponta. O telhado, que devia receber a água da chuva, recebe os gatos magros da vizinha. As telhas inclinadas não estão colocadas de maneira a canalizar as águas para o solo, mas como têm também função estética, e está bem desenhado, o telhado, embeleza a casa, como lindos cílios que embelezam os olhos tristes de um garoto que não chora nunca, as lágrimas de uma paixão incompreensível. Esse garoto, sou eu. Mesmo quando não sei quem ele é. E não tenho medo de ser ele. A única coisa que eu tenho, é um coração bom. Mas ele é de acrílico.
12.6.06
Peraí.
21.4.06
sangue do nariz
Na época do colégio eu sonhava com a época de hoje. E hoje eu perco o sono. Poderia fazer um desenho pra te explicar, mas não vou reproduzir algo que não seja capaz de aliviar a asfixia da ècharpe que me corrompe, a claustrofobia de viver no passado, trancado nessa limusine, essa quitinete enfumaçada, fazendo sexo sozinho, tocando violão errado. Quanto mais meus diplomas exigem assinaturas, mais eu vejo que não preciso de vida acadêmica, preciso de vida interior. Pois não quero ganhar o jogo, estou encantado pelo tabuleiro. Poderia soprar o gás venenoso que flutua sobre as cabeças dos meus pais no tribunal do superego, mas a libertação da mente passa por isso, inclusive. Repressão e negação são monstros que entram no cio. A auto-sabotagem é um redemoinho, não é um baile. É uma bijuteria que brilha muito. É um hábito noturno que perdura durante o dia. É uma aula chata, é uma aula de datilografia. Poderia descrever o que é raspar o verniz que cobre o corpo fetal do ego, mas todo mundo sabe como é. É desolador. Poderia descrever nossos sorrisos tímidos quando nos sentimos atraídos, mas não saberia descrever o seu, e é isso que me intriga. Poderia mentir e dizer que estou amadurecido completamente neste momento. No entanto, apesar da sua aposta discreta, de que meus horizontes são verticais, posso refazer infatigavelmente os mesmos caminhos que percorri com você, os mesmos lados nas avenidas, o mesmo roteiro nas estações de metrô, dia e noite, e nem mesmo assim eu acreditaria em destino. Estar com você nunca foi um passeio, era uma série de becos sem saída. E eu só posso sair deles, voltando pra trás. Ainda estou com o coração engessado, com essa cara de quem está esperando alguém. Esperando algo definitivo, mas nada é definitivo. Então é uma expressão eterna, uma plástica mal feita eterna. Essa ansiedade estúpida que aborta qualquer tentativa de passo. A minha própria presença diária me entedia, enquanto o tempo ainda vaza pelos cantos da minha boca, é triste, sou feio. Mas você é belo, adorável, ainda que não tivesse tanta criatividade para criar uma vida ideal, assim seria. Não pude aceitar seu amor a granel, poli minhas quinas agressivas para caber numa caixa de chapéu. Cada vez que penso em você, fico fraco como uma meia. Malvados martínis.
18.4.06
Desculpe!, é que eu estava fazendo música!
16.4.06
ipecac
Queria vomitar meu almoço orgânico em cima da comida congelada do Alex Atala. Queria ser um dos jovens seminus, enrolados numa rede de pesca, sujos de tinta vermelha, protestando em Santiago contra o consumo em massa de peixes na Semana Santa. Se meu Max Steel Às Dos Ares ganhasse vida, ele me faria companhia, com seu pára-quedas azul e vermelho, mas eu quero ficar sozinho, embora tente colocar meus braços em volta dele e o vejo sumir embaixo da manga do meu moletom; pra ele, eu sou um caminhão de dezoito rodas. Ele se empurra para dentro da casa anos 90 da Barbie Noite de Gala, a Magical Mansion, estilo colonial, com papel de parede e telhado em tons de rosa. O relacionamento deles é tão silencioso. Porém, Max Steel adora fliperama. Eu diminuo o som da tevê. Eu aumento a saudade que eu sinto do seu ombro encostado ao meu no metrô. E pra disfarçar a fantasia de pierrô gravada, colada pra sempre na minha pele, encho a capa do caderno com adesivos e depois arranco, mickey por mickey, depois colo outros mickeys, mas eu queria mesmo era colar uma foto sua 18x13 e passar contact. Ou várias 3x4. Depois, ajusto o retrovisor pra me ver. Eu cuido de mim mesmo. Enfio as unhas na pele macia da saudade até chorar, até sentir o ponto de ruptura, e esse lugar determinado é como um beijo forte que deixa marca na pele, um chupão, só que não há band-aid pra isso. Não é um ferimento superficial. Não há nenhuma base da avon que encubra. Não há pipeta que aspire essas lágrimas na piscina. As lagartixas ficam de olho em mim enquanto estou deitado, comovidas. Sonho que estou dormindo no bolso do seu jeans, e não há lugar mais confortável, eu queria morar pra sempre embaixo do seu cinto. Sonhar, às vezes, é a parte mais dilacerante da vida. É o códice da mentira. Eu experimentei, eu observei, não é uma teoria. Mas não posso negar a transcendência. É como a sua voz que escorrega pelos cantos da sua boca radial, eu o entendo. Você está dizendo volte numa outra vida e seja meu irmão. Mas eu não quero. Hoje, pela manhã, eu queimei meus dedos porque a grade do fogão queria que eu a tocasse. E depois, de cócoras, sentado sobre os meus calcanhares, com um espelhinho grudado na minha cara, vi bordas de piscina nas bordas das minhas pálpebras. Então decifro o vermelho dos meus olhos, não é amor, saudade, paixão. É cloro. Vai te desinfetar, minha bactéria amada, meu nadador de costas quebradas amado, com seu short de helanca ridículo, colado nas coxas. Minha casa de veraneio.
11.4.06
dentes brancos com tetraciclina
Eu nasci na Ri-Happy, por isso trago dentro de mim todas as barbies do mundo. Vejo um pêssego e penso: "ele quer ser mordido". E às vezes, transando, penso: "por que não estou aprendendo piano?" Mas certamente, se estivesse numa aula piano, pensaria: "porra!, por que eu não estou transando?" Eu estaria pensando em você. A sua cara no MSN. O meu remédio de acordar. Eu pergunto aos meus olhos aonde ir, mas eles querem figuras para reconhecer, lâminas de Rorschach. Ou seja, mapas. Vejo as garotas, seus dedos cabem dentro dos buracos dos cd's. Adoro as garotas, elas são doces. Mas os garotos mexem com a minha cabeça, e o interior dela é ardente e confinado, acho muito bonito quem tem coragem de mexer com isso, ela é uma máquina-de-lavar lotada de roupas de surfe impermeáveis. Mas eu também queria ser a Nathalia Duprat. Meu coração é um garoto visitando um museu de História Natural quando queria estar num Parque Aquático, é de fibra de vidro, um cavalinho de carrossel que corre acelerado, mesmo que a vida não seja o Jumanji, esperando encontrar seu superego sádico, mas ele está dentro de mim, não é possível encontra-lo, apenas reconhece-lo, e isso é um saco. Eu queria estar do avesso, porque por dentro a gente é cor-de-rosa igual a um chiclete. E colaram chiclete no meu cabelo. Eu cavei um abismo com uma pazinha de plástico, ao invés de construir um castelo de areia, quando minha mãe me esqueceu na praia. Depois, bebi um frasco inteiro de protetor solar e nunca mais fui o mesmo, nunca mais dormi antes das dez. Ninguém, mais do que eu, gosta tanto da palavra "fuga", e do perfume que ela exala. No entanto, eu ando devagar, balançando as mãos, mas as ruas andam tão depressa. Mergulho em autopiedade, sofro em silêncio, não é uma tarefa simples falar de angústia na psicose. Eu penso que posso relatar alguns momentos onde o psicótico experimenta essa dimensão de angústia, mas eu tenho sono. Vou pra cama e apenas o lençol dorme, enquanto eu desenho os nossos encontros. Eu queria pintar as paredes com a força do meu pensamento, pelo menos, a primeira demão. Eu queria também encontrar alguém com quem rolasse química, mesmo tendo sido sempre péssimo em química. Eu deixaria essa pessoa construir uma cidade com os meus ossos. Eu veria em seu ombro, a luz azul do dentista, e pensaria que é a minha alma gêmea, mesmo sendo a minha antítese. E quando eu te encontrei, éramos dois gatos curiosos, fiquei olhando para o seu tênis, nem tive tempo de levantar a cabeça e você já tinha desaparecido. Eu queria tênis iguais. Queria, ao menos, saber para onde eles te levam. Nem tive tempo de dizer meu nome e você já me conhecia. E já me desprezava. E eu nem tive tempo de te magoar. Por isso, os incêndios justificam a minha dor. Os labirintos têm saídas, o amor, não.
17.3.06
20.2.06
3.2.06
27.1.06
entrada de emergência
Eu presto atenção nos seus olhos, mas é sempre quando você já saiu do quarto. Um inseto polinizador rodeando uma flor de plástico que precisa muito de água. A gente queria mesmo ser feliz, mas não encontra no eBay. A gente até gosta de quarta-feira, mas isso não significa que nós somos heróis, aliás, nós nunca entendemos direito esse lance de ser herói. Meu cachorro passeia sem coleira, talvez ele seja um. E eu também, porque vai chover no meu casamento. E vai chover bem devagar. E eu vou chorar bem devagar. E alguém virá me consolar rapidamente. E eu comerei o bolo todo e aqueles noivinhos que ficam em cima. E a vida vai parecer bem melhor conforme eu me entupo de açúcar. Você não saca, mas eu preciso aguar as plantas subaquáticas atrás dos meus olhos. Os brigadeiros estão cheios de formigas, ou outra coisa. Conhecer alguém é uma tarefa complexa terrível. Mas até o céu deve se acostumar com as estrelas novas. Eu não quero ver você dançar sobre o linóleo escorregadio da decepção, compre a passagem de volta. Às vezes somos incapazes de saber onde estamos, ficamos à deriva por causa da liberdade. Há uma fronteira que eu jamais alcançarei, um sonho implorando pelo sono. Então vou enfeitar com lariços-dourados as minhas caras feias. Eu abraço as camisetas por aí e nunca é você lá dentro. Eu sou apenas uma adorável vítima da cópia carbono dos seus abraços. Eu entro no amor como um rapaz perdido entra num seminário. Você não deveria provar meu corpo, ele é um muffin truncado, tem aquele designer bonito, mas faltou açúcar. Vejo suas pernas descobertas, pêlos brilhantes arrepiados, mas este é só o seu prefácio, o resto eu queria enfiar dentro de um iPod. Você acelera alguma coisa dentro da minha casa, a cicatrização das paredes, a reconciliação dos cacos dos vasos quebrados. Seria bom domesticar o meu gato mental, ele lambe o glacê dos bolos que você me dá, dorme na caixa de areia. Minha cabeça é o seu jardim. Minha psique, a sua linha imaginária no mapa. Acabou o sal do meu oceano, esse imenso reservatório de certeza e afeto. Acabou o afeto. Mas não importa o quê o poema diz. A verdade é o que vemos através dos vãos da persiana.
19.1.06
7.1.06
os cavaleiros não se importam com isso
Quando a gente ama um idiota, ele muda de cor. Ele se transforma num techno com o qual você consegue meditar. A música do seu velcro. Seu computador cheio de idéias, o deus magrelo que ele adora. As frases todas cobertas de esmalte, atrás dos seus dentes. Eu queria mais que ser suas fronhas. Eu queria ser as suas colheres. Eu roubo os olhos azuis dos rapazes nas boates para pintar um céu impressionista pra você, e você me diz que prefere chuva. Mas eu também prefiro chuva. Meu coração de molusco é um trem. E você sabe o que os trens fazem com as pessoas. O problema é que as caixas me escondem quando estou dentro delas. As minhas placas estão invertidas, você pensa que eu sou feliz. Meus pulmões são maiores do que eu, mas eu não estou respirando, estou fingindo. Do mesmo modo que entrego tudo com as duas mãos, também peço. Porque não existe destino, só existe o seu zíper. Com certas coisas a gente só pode sonhar. E todo sonho é um inverno, quando o sonhador é um panda tibetano. A minha pele só começa a ser pele, perto da sua. E eu nunca quis tanto estar na minha. E a partir dela, respirar o seu sono. Eu me sinto livre quando desenho você do jeito que eu quero. Eu tiro a letra v do seu nome. Você é depois que eu coloco pilhas novas na minha lanterna. As frases de amor estão dentro da boca. E você sabe o que as bocas fazem com as frases de amor. Aliás, o que elas deviam fazer. E eu não posso dizer nada, um gato comeu a minha língua na pista de dança. Quando vejo você passar, eu também vejo passar o tempo. É um desfile assustador. Portanto, vou me preocupar apenas com as coisas que eu necessito. Nenhum cigarro, nenhum sono, nenhuma luz, nenhum som, nada, não comer, nenhum livro para ler. Fazer amor com você me deixa lúcido, você é um forno de pizzaria. Eu o amo, mas é só por causa do seu nome. Eu sou a sensação e você é a linguagem, e entre nós há um abismo, uma reunião de pais e mestres. Mas eles não ultrapassam as lentes dos nossos óculos escuros. Eles encontraram um novo remédio para quase qualquer coisa. Chama-se "não adoeça". E mesmo assim eu te amo. Eu não obedeço.
23.11.05
coração-dakar
Eu me desgrudei das asas de seda. Voltei para o casulo, a manta de lã, a cama. E agora, o que corre nas minas veias, não é mais sangue, é água com açúcar. O lençol da cama dos insetos parece tão mais esticado do que o da minha. Eles parecem tão mais dedicados. E eu sempre me pareci tanto com eles, mas só fisicamente. A minha personalidade é baseada em plástico e nomes de drinques. A lua, eu vejo, é bombardeada freqüentemente por pequenos meteoritos, e ainda assim ela é um modelo. Mas eu não posso. Eu blindei a minha vida com mistério. Eu desenhei o tédio mais lindo, olhando pra ela, a sua resignação apaixonante, mas o que eu queria mesmo era me transformar um pouco nos outros. Impossível, já que eu tiro fotos assim, com a lente tampada. Já que quero ajustar-me para dentro. Já que quero registrar o que tem lá dentro. Eu jogo fora os bilhetes porque para relê-los eu preciso abrir a cabeça. O coração já está aberto. Eu digo isso em néon. Mantenho o humor enquanto derrapo nas curvas perigosas. Porque já entendi o que é "o fim", é o último pedacinho do sanduíche saboroso. No entanto, não sei se prefiro acompanhar o seriado da tevê ou a minha vida ou a vida dos meus amigos ricos. Realmente é necessário intuir. O quê você decide acompanhar até o fim, desenha o seu mundo. Você não gostou do meu açúcar. Não gostou do mar que eu trouxe na boca. Preferiu acompanhar a história do mergulhador, ele trás o mar nas mãos. Eu não poderia, eu usava minhas mãos, os meus dedos, para escovar o seu cabelo. E hoje eu sou um frasco vazio procurando o perfume que evaporou. Você é o meu segredo industrial. Como relembrar um perfume? Às vezes eu sonho para poder conversar com você. E não consigo fechar os olhos. É necessário saber quem você ama de verdade, para beneficiar-se das coincidências afortunadas do destino. Não somos o casal que dança tango na chuva na propaganda do Chivas. Nós somos um casal de salmões voltando mortos para o mar. Um urso devora a nossa carcaça no inverno, antes de se deitar. É o nosso momento de maior privacidade, e o mais romântico. A nossa carne rosa, na boca de um faminto peludo.
25.10.05
doçura
Eu só sou invisível porque você não me conhece. Se você me descobrisse, veria que sou tão colorido e inteligente quanto um semáforo. Provaria meu beijo francês, e sentiria na pele, no caule, os danos de ser um dente-de-leão e não um amor-perfeito. Eu tenho a emergência das histórias curtas e a despesa dos longa-metragens, sou um menino-de-rua que veste Dior. O mundo da novela parece tão mais real, pelo ângulo de um sonhador. "Eu e você" é uma sentença que se funde e depois se distancia. Não posso suportar essa despedida mecânica, despedida cíclica, porque você volta, mascaro então o desfecho com os meus freios ABS. Vejo os trilhos do trem como uma extensão do meu abraço. Domino a lucidez, o cansaço, mas eu quero dormir. Com você. Vivo longe de tudo, porque vivo no cinema. Estou dependente do afeto que vem do veludo das poltronas. Eu me deito sobre a cadeira na praia, com os óculos escuros, antes que o sol nasça. Depois, afiança-se para fora, o inverno. Eu congelo na praia espanhola. E só depois de muito tempo percebo que o degelo é uma segunda chance. Saio da cova da solidão em busca de um microondas e posso alegar insanidade. Um menino bonito diante de uma porta fechada é capaz de armar uma grande rebelião. Eu só quero conquistar o mundo sem meus saltos altos. Então, um dia, eu vou escapar da tribo, como uma flor deixando o vaso para conquistar um canteiro. O mundo é uma enorme Febem. E nós somos os pré-adolescentes eternos que trazem dentro do peito, o calor dos radiadores. As abelhas estão dançando sobre os meus ferimentos. É uma espécie de bandagem viva. Estou me transformando na sua nova casa. Para deixar pra ele, a colméia vazia. A gente fica doente tentando fazer conjecturas. Eu faço exames, eu o deixo, eu o ilustro, eu o acordo, ele murmura, em meu meio-sonho embreando minha fantasia, tenho o ar completamente perdido. Mas não é sério, porque estamos cansados demais para mover um dedo do pé. Então ficaremos desmaiados nessa grande cama branca falando o mínimo possível. Até falarmos tudo. E vamos para a colheita boa do verão, no inverno. Cantando só os começos das músicas. Não podemos mudar o destino de Thelma e Louise. E é só o que nós queríamos.
11.10.05
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sangue do nariz
Na época do colégio eu sonhava com a época de hoje. E hoje eu perco o sono. Poderia fazer um desenho pra te explicar, mas não vou reproduzir algo que não seja capaz de aliviar a asfixia da ècharpe que me corrompe, a claustrofobia de viver no passado, trancado nessa limusine, essa quitinete enfumaçada, fazendo sexo sozinho, tocando violão errado. Quanto mais meus diplomas exigem assinaturas, mais eu vejo que não preciso de vida acadêmica, preciso de vida interior. Pois não quero ganhar o jogo, estou encantado pelo tabuleiro. Poderia soprar o gás venenoso que flutua sobre as cabeças dos meus pais no tribunal do superego, mas a libertação da mente passa por isso, inclusive. Repressão e negação são monstros que entram no cio. A auto-sabotagem é um redemoinho, não é um baile. É uma bijuteria que brilha muito. É um hábito noturno que perdura durante o dia. É uma aula chata, é uma aula de datilografia. Poderia descrever o que é raspar o verniz que cobre o corpo fetal do ego, mas todo mundo sabe como é. É desolador. Poderia descrever nossos sorrisos tímidos quando nos sentimos atraídos, mas não saberia descrever o seu, e é isso que me intriga. Poderia mentir e dizer que estou amadurecido completamente neste momento. No entanto, apesar da sua aposta discreta, de que meus horizontes são verticais, posso refazer infatigavelmente os mesmos caminhos que percorri com você, os mesmos lados nas avenidas, o mesmo roteiro nas estações de metrô, dia e noite, e nem mesmo assim eu acreditaria em destino. Estar com você nunca foi um passeio, era uma série de becos sem saída. E eu só posso sair deles, voltando pra trás. Ainda estou com o coração engessado, com essa cara de quem está esperando alguém. Esperando algo definitivo, mas nada é definitivo. Então é uma expressão eterna, uma plástica mal feita eterna. Essa ansiedade estúpida que aborta qualquer tentativa de passo. A minha própria presença diária me entedia, enquanto o tempo ainda vaza pelos cantos da minha boca, é triste, sou feio. Mas você é belo, adorável, ainda que não tivesse tanta criatividade para criar uma vida ideal, assim seria. Não pude aceitar seu amor a granel, poli minhas quinas agressivas para caber numa caixa de chapéu. Cada vez que penso em você, fico fraco como uma meia. Malvados martínis.
5.10.05
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Postal para Alice Springs
Isso não é rímel, são as suas lágrimas disfarçadas de vida maravilhosa. As lágrimas que nunca evaporam, continuam a rolar no estojo de maquiagem. E voltam pro rosto. A vida é ritmada pela novidade, é por isso que as crianças gostam tanto de girar. Leve-se à festa na cidade, leve a sua bola, a sua mãe, o seu pai, o seu cachorro. Seja agradável, mesmo que ligeiramente. Sorria, ainda que escondido. Faça uma surpresa como o vento, refresque alguém. Dance ao som dos ritmos africanos, como os balões no céu, os estilistas no céu, os pompons. Luvas cirúrgicas são tão difíceis de se colocar, mas ficam tão bonitas nas mãos das enfermeiras. Comova-se com os pequenos animais, quebrados em algum lugar, nas ruas, tente conserta-los; comova-se também com os deficientes, com os tímidos, mas, esses, não, não tente conserta-los. Aprenda canções idiotas com a sua amiga para vocês cantarem durante as aulas de ciências, de pé sobre as mesas, em sinal de protesto. Observe os rapazes voltarem dos beijos nessas grandes festas, observe as moças, elas são sempre puras, mas você não é, nunca se é puro quando se tem um irmão guitarrista de um grupo punk. O seu encontro com a linha de chegada é no dia em que você quer saber se pode correr muito, então deixe que o tempo passe à uma velocidade louca, talvez ele também queira encontrar a linha de chegada. À bordo do desmaio, demita-se, indo para a rua. Indo para a vida. Indo para o amor. Também há açúcar e desejo nas casas dos velhinhos. Explore a parte côncava dos braços abertos, experimente a nuca tensa de estar apaixonada. Há rapazes lindos que você nunca beijará e livros que você não lerá nunca, mas há outros que você comerá. Aí está, um móvel a montar. A desmontar. Extensões, torções. Cortes perfeitamente redondos se tornam cicatrizes perfeitamente redondas. O mundo é triste. O mundo é alegre. Mas não se deixe levar pela oscilação dessa máxima. Seja o que você quiser. Retorne a ligação. Ouça rádio. Não belisque os bebês. Estique os dedos. Estire-se. Abra os olhos. Feche os olhos. Um abraço.
26.9.05
vértebra deslocada
O principal desafio da engenharia da emoção humana é faze-la resistir às tempestades. Era só pro vento me levar, mas o furacão foi embora comigo dentro. Amava sempre como se fosse feito de aço fundido, mas eu sou de papel crepom, meu coração bombeia tinta de caneta. Ao invés de lágrimas, eu choro amoníaco. Mas isso é uma vantagem, já que meu esporte favorito é chorar na área vip. E assim eu desinfeto os hipócritas. Qual a eficácia do sorriso sarcástico? Estou muito cansado para me transportar por todos estes bordéis, eu vou ficar em casa pra sempre, acumulando capital. Nos meus sonhos eu nunca conheço seriamente a sombra de um homem, e se eles não fossem dotados de tão forte coeficiente de realidade, eu nem dormiria, viveria nos lençóis a distinguir o simbólico do concreto, editando a vida. A vida. Um strip-tease no escuro. Envelhecer no freezer é uma repressão solitária, prefiro as coletivas. O fluxo da vida externa é uma fruição inocente. Os beijos são portáteis, mas o vermelho não é. Cobiço, quase religiosamente, o silêncio dos tigres. Mas esvaziar a cabeça não é tão fácil e divertido quanto esvaziar um cartão de crédito. Eu entendi o silêncio da sua carta. Você quis dizer que a metamorfose é uma rota impossível para alguém tão perdido como eu, que tem uma dúvida permanente quanto às direções. É, não poderia nunca ter imaginado que bifurcar seria o símbolo do drama. Saí na chuva de canivetes e não voltei. Era só pra chuva me lavar, mas ela descoloriu a minha encrespada pele de crepom. Agora uso os dentes para convencer-me da propriedade da carne, que avança ligeiramente no ranking na sua disputa com a alma. Mesmo assim, um coração tem muito mais tesão do que um pênis.
12.9.05
pálido, doce e distante
Parece seda, o vestido do fantasma. Apático companheiro de viagem, que assombra os terríveis precipícios que rodeiam a cama. As correntes se arrastam ao longo dos corredores das mansões enquanto brinco na gangorra, esperando a chuva. Mesmo molhado, sou o meu contrapeso mais preciso, é óbvio; mas não é tão divertido como poderia ser, com alguém mais pesado do outro lado causando impulsos mais passíveis de ferimentos, talvez para onde se movem os astros. Voar é uma maneira de conhecer a clausura de uma gaiola, não acredito em histórias de amor. Só acredito nos filmes de terror e nas mulheres que cantam chorando. Bebi toda a sua colônia, pensando que iria transcender, ou enlouquecer. Até mesmo nos elevadores abrem-se pop-ups quando se aperta um botão. Depois do amor, mais desencaixado se fica, percebe-se que as estrelas não estão fixas, que os planetas encolhem, é desesperador. Por isso eu queria abraçar a sua síndrome do pânico. Ou despedaçar o vidro que contém a vergonha. Mas reformas radicais não cabem no escaninho da censura. A paixão platônica é um sprinkler que esguicha sangue. Estou procurando desesperadamente outra maneira de ver a ausência. Eu quero a versão diluída, na qual ser invisível não quer dizer insignificante. Não posso mais viver sem buscar meu espírito, estou naquele momento da tragédia quando o herói descobre que está tudo errado. Quero estar animado para dar jantares, e disposto a não começar a beber vinho antes da chegada dos convidados.
3.9.05
mesocarpo
Ele já percebeu que eu sou um lírio maluco que gosta da água que cai do ar condicionado. Ele amarra a blusa na cintura, eu adoro. Quero observá-lo, e vou chutar a canela de quem ficar na minha frente. Descobri que estou dentro da minha cabeça, e não do lado de fora. Saltei do navio em pleno mar, mas ainda não acordei. Acho que nós não éramos predestinados. Mas eu viveria com você mesmo se fosse tudo RPG. Mesmo se fosse tudo déjà vu. Eu durmo à tarde com as cigarras. Meu beijo é spray de pimenta, vamos ficar no celular pra sempre. Minha cabeça está dentro do forno, estou viajando. Estou mordendo seus lábios, isso é amor. Como unir duas pessoas tão diferentes só com silver tape? Estão separadas, por um cânion assustador, as pessoas felizes e as pessoas que querem ser felizes. Não permita que eu saboreie os cogumelos venenosos da grande salada da vida, meus ombros têm pinos pra encaixar asas. Sou o x-men mais fodido. E os vestidos mais bonitos se sentem sufocados dentro do armário, eles querem passear. A emoção dos gatos está na cauda. A minha também. E eu estou tentando me acomodar em caixas cada vez menores.
12.8.05
jatos luminosos de amor
Não sei se você é só um garoto ou se é só a minha poesia. Jatos luminosos de amor. Não sei se você é um garoto ou uma jujuba. Jujubas que curam. Pílulas doces, doces. Eu quero beijar suas feridas. Geléia vermelha de amor. Meias de algodão para percorrer o atalho. Eu como creme dental pra beijar sua boca. Meu coração é um morango podre que eu enfeito com chantilly pra você devorar. Abri sua barriga, prendi as borboletas lá dentro, depois costurei. Agora eu quero liberta-las. Libertar o seu diafragma. Eu me apaixonei pela sua respiração. Ela é como a de um gatinho doente. Mas eu não posso me apaixonar. Sou auto-destrutivo, eu murcho. Não respire, me poupe.
24.7.05
be
A tristeza da cama sorri. O jato dos toaletes fuma. Meu amor se move conforme minha respiração, tento então bloquear os pulmões. A cavidade do sexo é coberta com névoa, e a névoa altera todo o processo de reflexão da luz, por isso você me ama. A sua cara bonita é a minha manta. Silenciosamente, eu construo a nossa casa acima de nós. Quero acreditar que seu retorno não é um abandono. E todos os assuntos polêmicos são detergentes e não alarmes. Espero ser carregado quando desmaiar. Espero desmaiar quando acordar. A alegria da cama chora. Esse sujeito consegue entrar no meu coração e virá-lo pelo avesso. Todos os climas são adoráveis, todas as emoções lutam até a morte. Tenho uma vida interior exuberante, o mundo é muito belo, a situação global não me assusta, mas me sinto como quem assiste ou participa de uma tragédia grega, quero outra vida, não gostei dessa. Remova o mundo dos meus pés com a sua pá de servir bolo e deixe apenas lírios e pérolas, e eu descansarei na beleza do mundo, saboreando o medo e a maravilha de ser humano, sendo uma vespa.
21.7.05
grafo
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17.7.05
16.7.05
Jude Law
cupido locado
Odeio não ter ninguém para me abandonar, queria ser lésbica. No banho, vou apertar meus seios até eles explodirem. Minha única diversão é a cadeira giratória. Fugir do rock, pegando um táxi, seria maravilhoso. Mas é o que há, infinite sadness. Se a respiração tivesse espaços em branco que pudéssemos preencher com música, ela se tornaria multidimensional, o ar se tornaria eletrizante. No apartamento de cima está rolando uma festa, as taças de cristal estão sendo arremessadas pela janela, eles estão dançando sobre os sofás, as luzes piscam, parecem estrelas. Não recebi nenhum convite, nenhuma estrela, mas há uma taça aqui, vazia, estou dentro dela. E ela está dentro de mim. A festa lá em cima é deles. Há mais de duzentas hostess na porta. Vou então me maquiar e me deitar. Vou então engolir o gloss.
14.7.05
uia! a Daslu agora bem que podia fazer uma ponta de estoque, hein?! ô!
12.7.05
ao portador
Quando eu saio, é pra entrar em coma. Então, não é uma saída. A cerveja, a cidade, o palco. Nada me interessa, estou reprovado. Quem é lindinho não fica dependente. Estou seguindo aquela linha podre de foto tosca. Eu fico dependente. Sou um imenso esquilo meio confuso saltitando desajeitado, saindo da toca, trocando os pêlos, preso aos dentes de aço do compromisso. Eu preciso amar você. Mas com a alma das tesouras sem ponta.
22.6.05
certeza light
Tomo um copo de suco de maracujá e fico retardado. Não como pipoca de microondas porque elas são muito fedidas. No lugar dos pés eu poderia ter rodinhas de carrinho de bebê. A coisa mais inteligente que tenho feito ultimamente é ignorar os garotos. Assim, eu os poupo. Eu visto minha fantasia de astronauta. E não como, não vou mais comer, vou só tomar chá. Criei um perfume com gengibre, mostarda e sândalo, enquanto aguardava o efeito placebo de um comprimido amarelo. Quando durmo meu coração devia descansar, mas ele quer festa. E eu quero apenas sobrevoar a cidade, transformar as moedas de 10 centavos em notas de 10 reais. Eu compro muitas pilhas. A vida é tão curta. E tão cara. Estar vivo é um luxo, um desfile. Minha infância foi uma tempestade. Mas foi a tempestade mais rápida. O resto tem sido uma chuva fina. Mas eu gosto dos dias cinzas. Gosto de música triste, filme parado. E eu gosto de você. E o modo como somos idiotas. Quando eu te abraço eu só posso sentir a textura da sua camiseta. Sua pele de algodão. Abraço seu pescoço longo e choro, e você lambe minhas lágrimas com sua enorme língua cor-de-rosa. Saio da água morna da banheira e vou nu até o tapete da sala. Sou um anfíbio. Mas eu queria ser desenho animado.
11.6.05
Procuro algo na bolsa. Não me sinto tão só. Tenho tanta coisa. Minha roupa parece uma salada. Acho que no meu caso, só com laser. As pessoas no supermercado me empurram. Elas acham que eu sou um carrinho, por causa do jeito que eu ando. Meio bicha. Elas querem que eu compre as mesmas coisas que elas. Mas eu odeio as cartas de amor dos outros. Minha depressão é uma visita chata, que adora meu sofá, meu café, meu papo e shop tour também a distrai. Louca.
3.6.05
Não sei o que me atrai mais: empresários ou sapatos. Durmo com os dois. Tento não me apaixonar. Constantemente. Sonho com uma injeção de nuvem direto no coração. Inferninho. Estou perdido, mas é tão bonita a compreensão do labirinto. A cidade. É um grande hospital. As bactérias apaixonadas adoram álcool. O vento está gritando palavras obscenas. Bate em mim. Não sei o que me assusta mais: o que sobra ou o que falta.
28.5.05
17.5.05
O marinheiro tem aquele uniforme, o amor também. Quando preciso pensar em você, pensar em você uma última vez, eu o dispo. Não sei como consegue ir embora nu, mas você vai, você não tem vergonha, seu corpo é lindo. Enquanto tento passar pela fronteira, depois de todos esses arranhões, joelho ralado, tatuagens feias, baratas, pareço um inseto, com um pescoço enorme, torto, sou barrado no seu pensamento, apenas as lolitas voluptuosas passam. Retoques com lápis crayon não são suficientes, eu sei, sou uma rachadura na lua, mas é o que eu sou. E o verbo "ser" jamais conseguiu me despertar dos meus sonhos. Simplesmente, não consigo fazer minhas malas. O sonho se dissipa em dez mil pedaços e eu também me dissipo em dez mil pedaços. Quem controla tantos egos é uma hostess sorridente, ela diz que é muito melhor dançar ao invés de pensar. É por isso que estou dormindo.
14.5.05
Sou o trabalho do redemoinho. Não espero a vida, continuo. Sou uma casa de campo enorme feita com uma árvore. Procuro mais este sonho, abro com os dedos rachaduras no meu ego. Gosto das estradas cheias de buracos. E sua imagem em branco. Elas nos guiam delicadamente pelo plano das estrelas até nos encontrarmos. É como se o sol dissolvesse o absurdo dos cursos da distância entre você e eu. Meu coração de abelha, de mil cortes vermelhos, ao mundo das gotas, oferece sua precipitação. A moral que me carrega quer tirar a sua roupa estúpida, ela quer o seu gosto abertamente de manhã, incluindo amargos espectros da sua boca, e o doce açúcar do seu mau humor. Bebo o sangue do monstro que dorme no meu suco de uva. Os espíritos que borbulham nas regiões hostis da mente são montagens descascadas, não são reais. A vida através dos vidros manchados é um festival de possibilidades. Faço o trabalho leve, o restante eu movo em minha sobrevivência, de acordo com o que meus príncipes querem. Você pensou que eu estava de salto alto, mas eu estava de joelhos.
10.5.05
O outono é o meu assoalho. O ruído do vento, meu discurso decorado. Não sei se prefiro ver um fantasma ou um leopardo. Então deixo você escolher como quer aparecer. Pelos olhos dos outros, você é uma história, um corte no sorriso deles. Acredito que você e o meu travesseiro irão se encontrar um dia, e você irá descansar nele, comigo, e depois vamos dar uma festa de cinco dias. Ainda não dormi, até hoje, esperando seus dedos. Vejo o quanto um desiludido tem paciência para a sorte. Enquanto isso, me distraio lendo um romance chinês, e às vezes eu me concentro tanto que quase chego a vivê-lo. Eu me transporto. Aprendi com Sabina Spielrein, que aprendeu com Jung. Faço pesquisas - estou me especializando nisso - e me inspiro a fazer filmes sobre a psicanálise. Plutão solitário, congelado - eu penso nele. E é como me pareço quando desejo tornar-me verdadeiramente livre. Isso me apaixona. Uma descoberta: a felicidade, eles usam maquiagem para ela parecer triste. Algumas noites atrás, sonhei que estava restaurando as ruínas do Fórum Romano, talvez isso explique o que é minha vida: uma constante reforma, uma constante espera. Hospedado na Creche Branca, e alguém faz um carinho na minha cabeça, com eletrodos.
8.5.05
5.5.05
O poeta diz que sonho acordado, que o tom da época desorienta as crianças e que existo onde se poderia existir outro - tartaruga de água doce. Deslizo para um lugar onde, à luz nula, observo meu íntimo inimigo e sua arma. É um truque que me salva - os caçadores não podem ver qualquer coisa além disso. Deixe-me viver esses movimentos de respirar. Deixe-me fugir quando sofrer. Eu só quero acordar em cima de você. Essas miragens. O sonho não mudou, não existe ainda a morte. Então deixe-me rasgar as paredes. Você pode somente respirar, Hamlet. O vice-presidente do gelo está dentro da sua caixa de presente. Você logo se renderá. A chuva que você inventou era a surpresa para o meu telhado. Seus silêncios longos eram outros habitantes pequenos da floresta. Os homens novos fazem o divertimento dos velhos. Assim intenso do amor, assim um caso com um poeta.
1.5.05
Estréia! Calça Comprida
30.4.05
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